O material publicado neste post refere-se a uma sessão de aprendizagem, retirada do Manual do Instrutor, da Estação de Trabalho de Saúde. A Estação de Trabalho é um dos componentes curriculares de uma versão alternativa do Programa de Educação para o Trabalho (PET), do SENAC/SP. O programa é destinado para jovens em busca do primeiro emprego. A versão alternativa foi criada pela Germinal e não chegou a ser publicada e implementada, pelo menos na forma aqui apresentada. O excerto deve ser encarado como uma amostra do trabalho que pode ser desenvolvido pela Germinal Consultoria.
SESSÃO I – CONCEITO DE SAÚDE
Objetivos: esboçar uma caracterização do grupo de participantes em termos de hábitos e condições de vida. Possibilitar aos participantes uma primeira aproximação com a Estação de Trabalho, articulando-a com suas experiências de vida. Apresentar o conteúdo e a forma de desenvolvimento da Estação de Trabalho, adequando-os às expectativas do grupo. Iniciar a construção e interiorização do conceito de saúde, adotando como referência os conceitos propostos pela OMS e pela Oitava Conferência Nacional de Saúde (Brasil, 1986). Demonstrar a operacionalidade dos conceitos já construídos e em construção, em contraposição com aquele de ausência de doença. Identificar a realidade da própria cidade do ponto de vista da saúde, conforme os conceitos discutidos.
Atividade 1: A integração do grupo

Foto do espetáculo Samwaad do Projeto Dança Comunidade, reproduzida de http://www.ethos.org.br
A Estação de Trabalho é iniciada com dois estímulos incidentais, ambos já postos antes da entrada dos participantes. Uma música clássica suave (o primeiro movimento da Sonata nº 8 em Dó Menor, Op.13 (Pathétique) de Beethoven, por exemplo.), como fundo musical, e a projeção de um slide ou transparência contendo o seguinte excerto de poema:
Telegrama de Moscou Pedra por pedra reconstruiremos a cidade. Casa e mais casa se cobrirá o chão. Rua e mais rua o trânsito ressurgirá. Começaremos pela estação da estrada de ferro e pela usina de energia elétrica. Outros homens, em outras casas, continuarão a mesma certeza. Sobraram apenas algumas árvores com cicatrizes, como soldados. A neve baixou, cobrindo as feridas. O vento varreu a dura lembrança. Mas o assombro, a fábula gravam no ar o fantasma da antiga cidade que penetrará o corpo da nova.
Drummond de Andrade, C. Telegrama de Moscou. In: A Rosa do Povo. Rio de Janeiro, Record, 1984, p.166
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No ambiente, assim criado e assim mantido, o coordenador deve apresentar-se rapidamente e, logo em seguida, propor o desenvolvimento do “Jogo das Assinaturas”.
Jogo das Assinaturas
No “Jogo das Assinaturas”, cada participante recebe uma folha de papel contendo uma pergunta que deve fazer a todos os demais, colhendo as assinaturas dos que a ela responderem afirmativamente. As folhas de papel (sulfite) serão previamente preparadas e distribuídas ao acaso antes do início do “jogo”, contendo uma pergunta diferente em cada uma delas.
Perguntas do Jogo das Assinaturas
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1. Você já precisou fazer dieta? 2. Você acha que seu peso e sua altura são compatíveis com sua idade? 3. Você se alimenta bem? 4. Você dorme no mínimo 8 horas por dia? 5. Você fuma? 6. Você conhece as formas de prevenção da AIDS? 7. No seu bairro há saneamento básico? 8. A sua rua é arborizada? 9. Você já precisou do atendimento médico de um serviço público? 10. Você considera importante o lazer para a sua saúde? 11. Você conhece algum portador do vírus da AIDS? 12. Você já vivenciou alguma situação de violência entre jovens? 13. Você tem um bom relacionamento com sua família?? 14. Você já ficou “de pileque”? 15. Você conhece algum alcoólatra? 16. Você já tentou convencer algum amigo, vizinho ou parente a beber menos? 17. Você já estimulou alguém a tomar um “fogo”? 18. Você participa de algum grupo que mantém atividades comunitárias? 19. Você considera bons os serviços públicos de saúde de seu bairro (ou cidade)? 20. Você se considera uma pessoa que sabe perder? 21. Você pratica algum esporte ou exercício físico? 22. Você sabe o que é sexo seguro? 23. Você gosta de estudar? 24. Os seus vizinhos são solidários? 25. O bairro onde você mora é violento? 26. O seu ambiente escolar é saudável? 27. Você gostaria de ter mais amigos? 28. Você tem com quem conversar quando está triste? 29. Você respeita o meio ambiente? 30. Você gostaria de ser uma outra pessoa? 31. Você já organizou um evento esportivo? |
A relação de perguntas do jogo de assinaturas, antes inserida, é uma sugestão. Procurou-se abordar os cinco campos de ação de promoção de saúde proposta pela Carta de Ottawa: 1) Construção de políticas públicas saudáveis; 2) Criação de ambientes favoráveis à saúde; 3) Desenvolvimento de habilidades individuais; 4) Reforço de ação comunitária; 5) Reorientação dos serviços de saúde.
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Durante o exercício, todos (participantes e coordenadores) entrevistam a todos, tendo como referência a pergunta sorteada e visando a obtenção de assinaturas, a serem registradas na própria folha onde a pergunta está contida. Para tanto, todos deslocam-se livremente e ao mesmo tempo pela sala. Pode ser interessante manter o ambiente inicial (retroprojetor ligado, poema em foco, música suave…) e sua influência sobre o clima do grupo. Para o coordenador, essa é uma oportunidade para fazer um primeiro contato pessoal com cada um e uma primeira anotação e tentativa de memorização do nome dos participantes.
Completando essa fase, o coordenador registra os nomes dos entrevistadores (outro recurso de memorização), a pergunta atribuída a cada um deles e o número de assinaturas obtidas em relação a cada pergunta. Esses registros podem ser feitos em uma tabela traçada no flip chart, no quadro de anotações, em transparência ou no computador (data-show).
Atividade 2: Conceito de Saúde
Após os registros, o coordenador estimula o grupo a comentá-los. A partir desses comentários, o coordenador deve encaminhar o debate para a relação: questões e respostas obtidas / conceito amplo de saúde que se quer trabalhar. Finda essa fase, o coordenador apresenta sucintamente a estrutura da Estação de Trabalho e ressalta os pontos importantes do processo, principalmente a necessidade de participação de todos.
Divididos em pequenos grupos, os participantes devem pesquisar, recortar e colar/montar, ou desenhar e pintar cartazes que expressem um conceito de saúde. O coordenador assessora o trabalho, evitando manifestações assertivas sobre o conteúdo ou colocações do tipo “certo ou errado”.
Ato contínuo, os grupos apresentam os cartazes produzidos. O coordenador pode incentivar uma apresentação criativa dos mesmos (no interior de uma ação dramática, por exemplo). Feita a apresentação dos grupos, os participantes, em painel aberto, debatem as diferentes propostas em direção a um consenso sobre o conceito de saúde. Em seguida, a versão do grupo é contraposta à evolução do conceito de saúde dentro dos fóruns da Organização Mundial de Saúde.
Atividade 3: Avaliando a cidade
A atividade á iniciada com uma audição atenta e acompanhada pelas leituras das letras das músicas: A Cidade e A Cidade Ideal (A Cidade Ideal, de Enriquez – Bardotti, versão de Chico Buarque.).
Texto de Apoio 1: A Cidade
O sol nasce e ilumina as pedras evoluídas Que cresceram com a força de pedreiros suicidas Cavaleiros circulam vigiando as pessoas Não importa se são ruins Nem importa se são boas E a cidade se apresenta centro das ambições Para mendigos ou ricos e outras armações Coletivos, automóveis, motos e metrôs Trabalhadores, patrões policiais, camelôs
A cidade não pára A cidade só cresce O de cima sobe e o de baixo desce
A cidade se encontra prostituída Por aqueles que a usaram em busca de saída ilusora de pessoas de outros lugares A cidade e a sua fama vai além dos mares No meio da esperteza internacional A cidade até que não está tão mal E a situação sempre mais ou menos Sempre uns com mais e outros com menos
A cidade não pára A cidade só cresce O de cima sobe e o de baixo desce
Eu vou fazer uma embolada Um samba, um maracatu Tudo bem envenenado Bom pra mim e bom pra tu Pra a gente sair da lama e enfrentar os urubu Num dia de sol Recife acordou Com a mesma fedentina do dia anterior
A Cidade, de Chico Science, com Chico Science e Nação Zumbi, Isto É Show Pop Rock Brasil, CD 7
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Texto de Apoio 2: A Cidade Ideal
CACHORRO A cidade ideal dum cachorro Tem um poste por metro quadrado Não tem carro, não corro, não morro E também nunca fico apertado
GALINHA A cidade ideal da galinha Tem as ruas cheias de minhocas A barriga fica tão quentinha Que transforma o milho em pipoca
CRIANÇAS Atenção porque nesta cidade Corre-se a toda velocidade E atenção que o negócio está preto Restaurante assando galeto
TODOS Mas não, mas não O sonho é meu e eu sonho que Deve ter alamedas verdes A cidade dos meus amores E, quem dera, os moradores E o prefeito e os varredores Fossem somente crianças
Deve ter alamedas verdes A cidade dos meus amores E, quem dera, os moradores E o prefeito e os varredores E os pintores e os vendedores Fossem somente crianças
GATA A cidade ideal de uma gata É um prato de tripa fresquinha Tem sardinha num bonde de lata Tem alcatra no final da linha
JUMENTO Jumento é velho, velho e sabidão E por isso já está prevenido A cidade é uma estranha senhora Que hoje sorri e amanhã te devora
CRIANÇAS Atenção que o jumento é sabido É melhor ficar bem prevenido E olha, gata, que a tua pelica Vai virar uma bela cuíca
TODOS Mas não, mas não O sonho é meu e eu sonho que Deve ter alamedas verdes A cidade dos meus amores E, quem dera, os moradores E o prefeito e os varredores E os pintores e os vendedores As senhoras e os senhores E os guardas e os inspetores Fossem somente crianças
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Uma possibilidade de exploração das músicas:
As duas músicas falam de cidades. A primeira faz uma leitura de uma cidade real (Recife, Pernambuco). A segunda, várias leituras de cidade ideal (da gata, do cachorro) contrapondo-as com outras leituras das cidades reais (a voz de advertência das crianças). O ideal pode ser concebido a partir da crítica do real.
As maiores utopias são formuladas no interior das crises mais severas. O real pode também ser criticado a partir de uma situação e condição desejada. A crítica do real e a concepção do ideal são feitos a partir de determinados pontos de vista individuais ou coletivos (Nação Zumbi, gata, galinha, cachorro, jumento,…). As distâncias entre o ideal e o real podem dar origem a propostas de transformação.
A Estação de Trabalho de Saúde vai trabalhar em torno de leituras da cidade do ponto de vista da saúde. Leituras a serem feitas pelo próprio grupo de participantes. Leituras orientadas pelo conceito de saúde elaborado na atividade anterior. Leituras da cidade real e outras da cidade ideal ou a ser construída: a cidade saudável. Propostas e iniciativas de transformação serão retiradas das diferenças percebidas. Parte dessas propostas serão relacionadas a iniciativas de prevenção ao uso abusivo do álcool e da busca do uso responsável do mesmo. Essas propostas serão, posteriormente, transformadas em projetos efetivos de ação comunitária.
Mapeando a cidade ideal:
O coordenador recapitula, auxiliado pelos participantes, o conceito de saúde construído na atividade anterior. Em função dessas referências, os participantes divididos em pequenos grupos, elaboram um mapeamento inicial da situação da cidade do ponto de vista da saúde (a cidade real).
Orientados explicitamente pelo conceito de saúde e, implicitamente, pelo de ações de saúde (reparação, prevenção e, especialmente, promoção), o diagnóstico será apresentado (na próxima sessão) tendo como suporte o mapa da cidade. Outras formas de representação podem ser adotadas. A cidade pode ser construída, visualizada e apresentada através de um desenho, de um croqui ou de uma maquete. Sobre o mapa ou forma de representação escolhida, os grupos indicam as condições e os equipamentos urbanos destinados à Promoção da Saúde. Também assinalam, distinguindo-as, as condições do espaço urbano que dificultam ou prejudicam uma existência saudável.
Os grupos concluem a construção e o coordenador solicita aos participantes que procurem obter, individualmente, para a próxima sessão informações que venham a complementar o diagnóstico, se necessário. Encerra a sessão, marcando para o primeiro momento da sessão seguinte a apresentação dos trabalhos.
Recursos: retroprojetor, transparência contendo o poema, aparelho de som, fitas gravadas com a música de fundo e as músicas-tema, letras das músicas impressas para todos os participantes, perguntas do jogo das assinaturas escritas em folhas de papel sulfite, revistas velhas, tesouras, tubos de cola, canetas coloridas, folhas de flip-chart, um mapa da cidade para servir de referência ao trabalho dos grupos.
Duração Prevista: 4 horas
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